A guerra de um gari autodidata em busca da aprendizagem


Antes de tudo, digo que eu tenho dificuldades na escrita nas regras gramaticais, porque não tive oportunidade de estudar quando criança, pois fui menino de rua dos meus 5 aos 14 anos. Mas  depois que meus pais abandonaram o vício do alcoolismo, foi que deixei de pedir esmolas e dormir nas ruas, deu então o início e desejo de entrar no mundo da leitura por causa dos desenhos que fazia copiando de gibis, que muitos chamam de revistas em quadrinhos. 

O bom do fim do alcoolismo dos meus pais, é que minha mãe, dona Floripa Martins, com ajuda de religiosos que lhe alfabetizaram, me alfabetizou para que eu pudesse  aprender lê, para ler melhor à Bíblia pra ela, pois a mesma era católica. Em pouco tempo fui alfabetizado por minha “Véia”, e aprendi lê em casa (Na extinta Favela da Cachoeira), já que a mesma lia um pouco e com muita dificuldades. Meu primeiro livro que li completo foi à Bíblia Sagrada e livros russelitas, da linha teológica do Sr. Charles Taze Russel, porque  não tinha outra forma de literatura em casa, só a Bíblia, gibis e livros religiosos das Testemunhas de Jeová , que me ajudaram muito no meu processo de alfabetização, devido a livros dessa área, que os mesmos alfabetizavam pessoas para facilitar o discipulado proselitista, e essa ação positiva dessa religião com seus livros que doaram a minha “coroa” foi uma boa contribuição para nos levar ao mundo das letras. 

Quando adolescente, caçava lixo reciclável para ajudar no orçamento de casa (meu pai era gari), e nas andanças pelos lixões encontrava livros e revistas velhas e levava pra ler em casa. Fiz minha matrícula na Escola Municipal Anésio Leão, bairro Monte Castelo, na Zona Leste de Campina Grande-PB, porém por causa da bagagem das ruas só estudei 2 meses e fui expulso por bagunça e brigas em sala de aula. Mas não deixei de lado o meu vício de lê, porque sou autodidata. 

Os ratos catitas destruíram roupas e e meu registro de nascimento, isso prejudicou-me a procura outra escola para continuar no ciclo de aprendizagem.

Aos 18 anos, sem nunca ter feito a primeira série do Ensino Fundamental, fui convidada por dona Nervinha, que na época era diretora do Grupo Escolar Servy Coentro a estudar no período da noite, em uma espécie de supletivo, que chamava de Pós I e Pós II, no qual o aluno fazia em apenas 1 ano a primeira, segunda, terceira e quarta séries do Ensino Fundamental, aceitei, porém, a eleva leitura que tinha dos livros em casa, me fez em menos de 2 meses ser transferido pra outra sala, o Pós II (Terceira e Quarta Série), desisti porque tinha muito bagunceiros, e como o congestionamento liberta, aquele garoto que foi expulso da escola com 16 anos tinha "morrido", agora não era mais o "Dedé bagunceiro", mas o Martins ordeiro. 

Por esse motivo, desisti porque não aceitava bagunça em sala de aula, porque sabia o quanto fui prejudicado no aprendizado escolar, pelas bagunças que fez a diretoria me expulsar na época. Mas passei pouco tempo na desistência, pois todas as noites ia pra frente da escola esperar o meu irmão que ficou ali estudando, e a professora Fatima Gós Mateus, me convenceu a voltar a estudar. Terminei o primeiro ciclo do Ensino Fundamental, mas me acomodei por causa de influência de doutrinas radicais do pentecostalismo, já que me converti ao protestantismo moderno. 

Fiz o concurso pra gari e passei. Com meu primeiro salário comprei um mini dicionário Luft, um livro de Nostradamus, São Cipriano e uma Bíblia Sagrada. No exercício da função achava muitos livros e os levava pra casa, onde tinha uma estante lotada de livros diversos, que comprava e encontrava no lixo na atividade de gari. Depois de anos sem estudar, por sentir difundida na escrita, resolvi voltar a sala de auto, porém deu complicações na elaboração da transferência pra fazer a quinta série no Colégio, pois não existia registro histórico escolar da minha pessoa, porque estudei de forma clandestina já que não tinha nenhum documento na época, nem registro de nascimento eu não tinha. Mas conversei com a atual diretora que também me conheci desde jovem, e a mesma na época conseguiu com 0 secretária de Educação do Município uma declaração comprovando que eu estava hábito a cursar a quinta série do Ensino Fundamental. Fiz a matrícula e passei pra sexta série com boas notas. Mas infelizmente já no fim do ano letivo tive que abandonar a escola por causa da carga horária no trabalho, porque era ano Eleitoral e eu estava trabalhando no Fórum Eleitoral da minha cidade cedido pela prefeitura, pois sou servidor público municipal efetivo (gari). Depois do pedido eleitoral fiz o Supletivo de Primeiro Grau, fui aprovado e no outro ano,  quando iniciou as matrícula na rede de Educação do Estado da Paraíba, fiz minha matrícula no primeiro ano do Ensino Médio, onde em menos de 5 meses tinha desistido na sexta série di Ensino Fundamental.  Quando entrei na sala de aula, o professor de Matemática, ao me ver entrar pra participar da sua aula quis me colocar pra fora da sala de aula, mesmo antes de fazer a  chamada dos alunos. Falei pra ele que estava matriculado no princípio ano do Ensino Médioll, porque na desistência di Fundamental fiz o Supletivo. Ele apertou minha mão, me fez o maior elogio em sala de aula e todo alunado ficaram de pé pra me aplaudir. 

Mas, ainda no primeiro semestre, a Prefeitura Municipal de Campina Grande abriu inscrição para os servidores efetivos do município poderem fazer o Supletivo de Segundo Grau (Ensino Médio) no PMQS, que era um programa (Plano) de qualificação dos seus serviços, que oferecia Supletivos Escolar e poliglotas, cursos técnicos e profissionalizantes. 

O Supletivo de Ensino Médio era feito em 1 ano e meio, então em vez de estudar os 3 anos normal, fiz o Ensino Médio em menos de 2 anos. Fui aprovado e parti pra o vestibular de Comunicação social, ficando na quarta lista de espera, porém ninguém desistiu. Foi então que inventei de Fazer o Curso de Direito em uma Faculdade privada, mas infelizmente um problema grave de saúde me afastou do meu maior sonho, que era ter um curso acadêmico e muito mais. Passei 12 anos no ostracismo escolar, mas nunca abandonei por total o maior vício como autodidata, o amor pela leitura. 

Hoje estou bem, superei a praga do século, e se essa praga não me derrotou, se o vento da vida não parar para mim, a Universidade que me aguarde! Só que o Brasil é muito errado pra eu voltar a fazer Direito! 

Por Martins da Cachoeira

O Gari Poeta Filosófico





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