Discriminação com os moradores da Favela da Cachoeira
Em entrevista concedida a professora e escritora Hilmaria Xavier em 2011, sobre memória viva de alguns ex-moradores, após o fim da Favela da Cachoeira, da nossa vivência naquele lugar, que serviu de fonte de informação para a mesma escrever seu livro; "A invenção de um lugar: Vivência e Memória da Favela da Cachoeira", no qual foi destacado que, desde a sua origem até a extinção em 2006, não existiu nenhuma escola dentro da favela.
As crianças, jovens e adultos para poder estudar, se deslocavam aos grupos escolar mais próximo, entre eles o Anésio Leão, que se localizava no bairro de Monte Castelo, próximo à ponte que dava acesso aquela comunidade. Onde sofreram o preconceito pela sua condição social. Até chacota era feito usando o nome da escola citada. Hilmaria me perguntou se tinha escola na favela, e eu lhe respondi o seguinte: "Tinha fora, o Anésio Leão. A maioria dos alunos lá era da Cachoeira. Criaram até um slogan doentio lá por causa disso que dizia "Anésio Leão, entra burro e sai ladrão", por preconceito que quem estudava era o povo da Cachoeira, a "gangue" da Cachoeira. Eu entrei lá com 14 anos pra estudar, mas já sabia ler. Aprendi a ler em casa com minha mãe. As pessoas na igreja alfabetizaram ela e ela me alfabetizou.”
O preconceito não era somente na fase escolar, mas também predominava na adulta. Em especial, quando procuravam trabalho. Relatei a minha experiência que sofri quando jovem em busca de emprego, disse a ela, dos traumas que tinha por causa da humilhação e ódio que sentia ao ouvir sempre ‘não tem vagas', só pelo fato de morar na favela. Fiz o seguinte relato: " Eu com meus 17, 18 anos de idade eu sofria discriminação. Ia atrás de emprego, entregava currículo. As vezes eu escondia, não colocava o nome do bairro em que eu morava, porque se colocasse Cachoeira ninguém aceitava. Eu me lembro como hoje, eu tava no distrito, tava de bicicleta, tava entregando currículo. Fui no distrito encaminhado por um amigo. O rapaz disse "tem vaga, traga o currículo". Eu saí feito um cachorro doido, correndo com a bicicleta, voltei na Cachoeira, comprei o currículo, coloquei a foto, preenchi, coloquei lá que morava em Zé Pinheiro e entre parêntese Cachoeira. O rapaz disse que tinha vaga. Quando ele olhou meu currículo que tinha lá Cachoeira, ele disse "tem vaga mais não, já foi preenchida". Eu saí revoltado. Eu coloquei "Zé Pinheiro (Cachoeira)" porque a Cachoeira era limite com ele, com Monte Castelo e Nova Brasília. Eu saí muito triste de lá quando o homem disse que não tinha mais vaga, quando ele mesmo disse que tava precisando. Fiquei revoltado, cheguei em casa indignado, mordido, chorando, "pai, eu não vou aguentar mais não, esses ricos são uma desgraça". É isso que gera revolta nos jovens. O jovem fica revoltado porque sofre preconceito e é maltratado pela polícia dentro da favela. O jovem se sente revoltado de levar tapa na cara e ver sua mãe sendo xingada. E muitos deles de ficar revoltados, entram na bandidagem pra poder se vingar. Se estão dizendo que ele é bandido ele vai ser só de revolta."
Muitos dos que ali nasceram e cresceram, sentiram na pele o preconceito desde criança até a idade de adulto, tanto na escola como em busca de trabalho honesto.
Por Martins da Cachoeira
O Gari Poeta Filosófico

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