O famoso Mão na Boca da Zona Leste e São Cipriano


No fim dos anos 80 e o início dos anos 90, os programas policiais radiofônicos destacavam um homem criminoso e perigoso com o apelido meio que estranho. Toda Campina Grande-PB o conhecia pelos noticiários, pelo apelido de “Mão na Boca”. Em especial, os moradores da Zona Leste, que era a área que ele morava e atuava criminalmente.

A imprensa, a Polícia Militar e Civil propagavam que “Mão na Boca” teria feito pacto com Satanás, e que o mesmo fazia feitiço de invisibilidade, usando o livro de magia, o famoso livro da Capa Preta, do ex-feiticeiro antioquino, São Cipriano. Isso porque surgiu um discurso folclórico popular que, todas as vezes que a polícia entrava em ação para prendê-lo o mesmo desaparecia no vento. 

Muitos questionavam o porque o jovem criminoso era chamado de “Mão na Boca”, eu também não sabia a origem desse apelido. Mas certa feita estava em frente a casa onde moraram a família de “Fafá” e “Tota” da escola de Samba Acadêmicos de Monte Castelo, que ficava no início da ladeira da rua Militão Marques, na extinta Favela da Cachoeira, conversando com as amigas, “Kika” e Capela”, contando a elas que tomei 2 litros de leite de uma só vez, e de repente, chegou um homem estranho, franzino que mais parecia com um nerd estudante ou “boia fria”.

Ele pediu as meninas um copo com água e ficou ouvindo minha conversa com elas perto da caixa d’água. Quando escutou dizer que tomei 2 litros de leite, o estranho disse que tomava três. Aceitei o desafio e falei pra ele que tomar apenas 3 litros era coisa de otário, pois se ele tomasse três litros de leite eu tomaria 4, 5, 6 ou mais do que ele tomasse. O mesmo disse que só aguentava tomar 3 litros. E antes de se despedir calado, perguntou: “Amigo, você sabe quem sou eu?” disse-lhe: “Não sei, nem quero saber. Só sei que é um mortal igual a eu e não é maior que minha pessoa, pra vir tirar onda de fortão em querer me desafiar sem poder. Sou homem igual a você”. O mesmo botou a mão na boca e disse: “Valeu, moleque, dou valou a cara assim. Vejo que é um moleque doido, um cara homem. Fica com Deus!” O franzino, baixinho e meio raquítico foi embora. 

Quando ele saiu “Kika” e “Capela”, que o conheci e tinha medo dele, pois tinha a fama de assaltante, assassino, ladrão e estuprador, logo disseram: “Dedé, tu é doido ter falado isso! Esse cara que parece um ‘leso besta’ é o perigoso famoso Mão na Boca, que usa o livro de São Cipriano pra fazer maldade e praticar seus crimes. Depois some na cara da polícia”. Então eu falei, antes dele pensar em ler o livro da Capa Preta, eu já tinha lido no fim da minha adolescência. Ele pode sumir da polícia porque não parece um bandido, mas cara a cara ele sabe que é ser humano e não existe poderes mágicos na lei da física em uma contra reação. Se ele tem todo esse poder, porque não me atacou? Como disse ao mesmo, ele é homem mortal como eu sou.”  Mas falei dessa forma com ele porque pensei que estava brincando, porém ele falava a verdade, mas não foi homem ao tanto pra aceitar o meu contra desafio, até porque nessa época eu era um cara de desafios por praticar artes marciais. 

Depois disso, todas as vezes que via “Mão na Boca” na Favela da Cachoeira, ele fazia questão de vir falar comigo, porque não me deixei levar pelo medo diante da sua má fama. Mas quase perdi a vida, ou fui preso por legítima defesa, por não julgar ninguém pela aparência e má fama decorrente. 

Antes de me criticarem, na época eu era jovem e não tinha a mentalidade de hoje, tinha que conviver e respeitar todo mundo na favela, porém, era preciso exigir respeito também. Mas assim como a maioria dos jovens, nós vivíamos do trabalho e da honestidade e a “galera de peso” lá dentro nos respeitava. E vi que o rapaz que estava me desafiando sem me conhecer não era de lá, pois passava por cima das regras. 

Essa onda de invisibilidade que muitos lhe atribuía, era pura mentira popular. Ele desaparecia em perseguição policial, porque sua aparência era de um cara molenga, um estudioso, um cidadão trabalhador e um jovem honesto. Por isso que os policiais passavam por ele e não o prendia, pois o julgava pela boa aparência em se vestir, e de um homem bom, assim como também o julguei e levei o seu desafio na esportiva. 

Quem recebeu a culpa pelas suas maldades foi o pobre do Livro da Capa Preta, que também o li e vi que tudo era mera ilusão como os demais livros de feitiçaria,  horóscopo, karma e metafísica transcendental. 

Entretanto, posso dizer que foi maior perca de tempo em minha vida, ter parado para ler o livro de São Cipriano, muita leseira e idiotices, recheadas com crendices popular. O infeliz ensinava a matar um gato e comer a carne dele até ficar invisível. O pior é que, assim como muitos, eu acreditei nessa leseira e passei o tempo todo procurando um gato preto, com um ano de idade, para matar-lo  e chupar seus ossos dentro do cemitério, até encontrar o osso magico que tornava invisível quem fizesse o tal feitiço. Coisa de gente doida que acredita em coisas do transcendental e metafísica! Hoje não acredito mais nessas leseiras.

Se o jovem Mão na Boca era magico mesmo, não teria sido morto como foi tragicamente,  como morre a maioria dos famosos do mundo do crime em confronto com a polícia ou entre eles mesmos. 

Use sua boca em defesa dos que mais precisam. Fale de amor e pratique, não da boca pra fora. Viva em paz com todos, hoje quem mata, amanhã também morre. Fica a dica pra os nossos jovens de hoje que querem ser o mão na violência e no cemitério, aonde estão os restos mortais do perigoso mortal; “Mão na Boca” que perdeu a oportunidade  de ser feliz no meio dos irmãos, a humanidade. 


Por Martins da Cachoeira

O Gari Poeta Filosófico

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