A mulher que não morreu incendiada por causa de uma criança


Por volta de 1978, foi inaugurada  a ponte que dava acesso a extinta Favela da Cachoeira, que interliga até hoje as ruas Deputado José Gaudêncio, no bairro Monte Castelo com a rua José Adelino de Melo na divisa do Bairro citado com o José Pinheiro, Zona Leste de Campina Grande-PB, entrada da favela.

Era um lugar onde todas as noites as crianças que moravam naquela comunidade, subiam as ladeiras pra brincar de pega-pega (tóca) e esconde-esconde (Trinta e um batida), porque não tinha energia elétrica  naquela comunidade carente . O fato que vou narrar ocorreu com minha mãe, dona Floripa Martins da Silva, que veio da Zona Rural de Queimadas/PB para morar em Campina, onde foi uma das fundadoras da favela supracitada. 

Lembro quudo o então prefeito, Enivaldo Ribeiro fez a ponte da 'Cachoeira'. Como já falei, na favela não tinha energia elétrica, então foi uma alternativa de diversão para a molecada poder brincar. No dia da inauguração fiquei brincando até por volta das 21:00 h. Nesse dia minha mãe tinha saíndo sedo para pedir esmolas, nesse dia fiquei em casa e estava e noite estava ali festejando a inauguração. Por volta das 18:00 h, minha "coroa" desceu com sua cachorras vira-lata; Quikiki, Silêncio e Duquesa, que acompanhava ela no dia a dia de 'esmolação'. Bêbada como sempre, me chamou para levar as esmolas em casa. Desci e subi para poder continuar a brincadeira. Por volta das 20:00hs, 'a barriga começou doer e veio a vontade de defecar. Desci correndo as ladeiras na escuridão, quando cheguei em casa, vi que minha velha dormia no quarto com o cachimbo na boca e com o candeeiro aceso em cima de um 'tamborete' bem perto da sua cabeça. Passei para a cozinha (Uma latada de madeira, plástico e papelão) para pegar saco de papel de embrulhar seriais nas mercearias e feiras. Nós usávamos esse tipo de papel grosso para limpar o "roscópio” (orifício anal). Antes de defecar, passando em frente ao quarto dela, vi quando a mesma bateu no 'tamborete' (assento de madeira) e derrubou o candeeiro que elevou o fogo sobre o colchão. Parei e fiquei gritando por socorro, mas como só eu estava ali para socorrê-la, mesmo sendo criança tive a ideia de apagar o fogo batendo em seu corpo e na cama com uma coberta. Joguei água e consegui a apagar o fogo, mas ficou uma marca no seio dela causada pelo candeeiro aceso que caiu  na 'coberta-de-chita'  e colchão de palha. Passei 'banha de porco" no seu peito, tentei acordar minha velha e nada, por que o coma alcoólico não deixava ela voltar a tona. 

Mas graças a Deus que foi tudo resolvido. Após a defecada no pé da parede, no lado de fora, na beira da barreira onde ficava  casa, por que não tínhamos banheiro no nosso casebre, subi para brincar mais os colegas por que sabia que minha velha não corria mais risco de morte. 

No outro dia, minha ‘velha’ acordou com a cama e lençol molhados e uma feia cicatriz elevada no seio, gerada pelo fogo. Ela ficou chorando e me perguntou o que aconteceu, pois viu parte do colchão e um lençol queimados, após contar que a salvei de morrer incendiada, ela chorou e deixou de beber cachaça, até hoje tem abuso de bebidas alcoólicas, por que salvei sua vida mesmo sendo uma criança. Mas por ironia do destino, minha mãe foi salva por mim de morrer incendiada, porém em 2006, meu saudoso irmão Paulo Martins de Paiva não teve a mesma sorte que ela teve. Em um incêndio que ocorreu em uma sapataria, na rua Amaro Coutinho, no bairro José Pinheiro ele morreu incendiado no dia 19 de janeiro de 2006, um dia triste que não esqueci e só apagará da minha mente no dia em que eu morrer. 

O fogo fez história na vida da minha mãe, nela e no seu filho que até hoje seus sentimentos estão queimando sua memória, pela dor que ainda sente da perca do meu irmão! 

Por Martins da Cachoeira

O Gari Poeta Filosófico

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