Os Cavalos de Aguardenteiros na Favela da Cachoeira
Por volta dos anos 70 e fim dos anos 80, na extinta Favela da Cachoeira sempre nós víamos os fabricantes de "cachaça brejeira" visitar a nossa comunidade.
Eles eram chamados pelos moradores de "Aguardenteiros", isso porque entregavam suas cachaças aguardente, que eran por eles produzidas, em pontos comerciais; como mercadinhos, mercearias e bodegas nas margens e na entrada da favela.
Por onde passavam chamavam a atenção, porque mantinha a tradição dos tropeiros da Borborema, que eram homens com suas tropas de burros, que transportavam produtos da zona rural pra zona urbana desde a fundação da nossa cidade. Lembro que os “Aguardenteiros” sempre chegavam com seus burros, jumentos e cavalos com caçoas nas costas, que eram botijões feitos de borracha e madeira, e tinham os que era totalmente de maneira.
Os burros, jumentos e cavalos, que eram utilizados nesse ofício, eram chamados de "Cavalos de Aguardenteiros".
Nessa época eu era criança, sempre andava no “cóe” da minha mãe, pedindo esmolas e esperando a mesma tomar suas doses de cachaça pra criar coragem, pois a danada da cana brejeira, tirava a vergonha da mesma e a estimulava a arte da esmolação.
Antes de saímos de casa para a esmolar, mãe comprava sua "meóta de cana" na bodega de Seu João e dona Maria Gorda. Era justamente ali onde eu via os brejeiro com seus cavalos de Aguardenteiros. Mas com a morte de seu João Gordo, a bodega passou a ser de Zé Guarda, que transformou em mercearia, porém, ele continuo vendendo a cana brejeiro.
Sempre subia as ladeiras da favela pra comprar a casinha de minha “véia”. Porque ela era sua freguesa ativa, de domingo a domingo comprava cachaça na mercearia de Zé Guarda para manter o vício do alcoolismo geralmente pra desfaçar os sofrimentos que passávamos.
Todas ás vezes que eu chegava na dita mercearia, com ou sem minha mãe, ficava invocado com Zé Guarda, pois ele chamava "coroa” de depósito de aguardente ambulante, e eu era o seu "Cavalo de Aguardenteiro". Joguei muitas pedras nele e em outros bêbados que ficavam me apelidando, de "Cavalo de Aguardenteiro".
Depois que entrei na adolescência, passei ser um potencial consumidor de aguardente, só que oculto, isso pra não levar cassete de mãe.
Ao sair da adolescência, com estrutura corporal de adulto e mentalidade de leão e desenvolvimento de arte marciais, tanto Zé Guarda como os seus bêbados fregueses, deixaram de me apelidar. E também porque minha mãe venceu o alcoolismo e nossa vida mudou. Deixei de pedir esmolas e de comprar cachaça, para o consumo diário da minha mãe e do meu saudoso velho pai. Então, não cabia mais o engraçado apelido sem graça, que para mim, não faz mais jus.
Isso porque o meu atual realismo real, não me deixa esquentar com nada de apelidos...
O tempo por mim passou
E fez o feroz leãozinho
Ficar forte e crescer.
E os bêbados zombeteiros,
Com o senhor Zé Guarda:
Não mais me chamaram;
De "Cavalo de Aguardenteiro."
Por Martins da Cachoeira
O Gari Poeta Filosófico

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