O passado abusivo e os traumas que tomaram conta de mim
Desde moleque passei a ter a "cara de pau" por causa das pressões psicológicas, que sofri da minha mãe, quando ela vivia no alcoolismo no meu tempo de criança. Também passei duros momentos de loucuras nas garras de minha irmã Aparecida Martins, que carinhosamente nós a chamávamos de Tida. Até hoje tenho marcas de queimaduras de cigarro que ela apagava na minha pele, sem falar nos beliscões que derramava sangue da minha barriga. Tem coisas horrendas que ela fazia comigo quando mãe saía de casa, e eu não dizia a ela com medo das ameaças que sofria da minha irmã.
Desde os meus 5 anos, sempre fui perceptivo e na minha, era um moleque calado, um pouco isolado, de poucas palavras, depois da puberdade, o silêncio tomou conta de mim, por isso tinha poucos amigos. Desejei ser um justiceiro mas o medo da minha mãe não me deixou trilhar por esse caminho. Me tornei um adolescente muito inibido e introvertido, acanhado até com o espelho.
Depois que meus pais se livraram do alcoolismo, e fui alfabetizado por minha genitora, ainda lembro na minha juventude, ficava sentado no jardim de casa, lendo meus livros e gibis que achava nos lixos e comprava com dinheiro das esmolas que pedia. Quando parava pra meditar sobre os assuntos abordados nos mesmos, ficava com a cara fechada parecendo um “monstro” por ser desprovido da cultura da beleza midiática, e minha mãe perguntava-me: "Meu filho tá com raiva de quem?" Não gostava quando ela perguntava isso, pois foi ela que me ensinou a ter a cara dura (cara de pau). Sempre me dizia que o homem que chora e vive sorrindo, não é homem, é um moleque. Eu acreditava nisso, e vivia na pratica ao pé da letra.
Só aos meus 17 anos, depois de lê a Bíblia toda, e muitos livros de psicologia e autoajuda, é que passei a lutar pra mudar meu comportamento. Mudei um pouco e passei a fazer amigos dentro da favela da Cachoeira, lugar onde nasci em Campina Grande-PB. Porém, não confiava em ninguém e não era de muita brincadeira. Os amigos de infância sabem muito bem disso.
O mundo das letras e a busca por conhecimento sobre o, meu “EU” interior, o consciente, o subconsciente, o Ego, Id e superego, foi o que me fez conhecer e vencer muitos traumas que reinavam em minha mente. O desejo de me tornar um jovem desinibido e extrovertido, me levou a adentrar na leitura sobre a arte de fazer amigos, da sedução e de falar em publico. Então passei a participar do movimento da Renovação Carismática, com o intuito de colocar em pratica o que aprendia nos livros, isto é, socializar os conhecimentos que adquiri após deixar de ser menino de rua. E com o dom da poesia, ficou mais fácil me destacar nas rodas de amigos.
Depois que contrai núpcia, com os meus 18 anos, minha ex-esposa quando me via calado em casa, também fazia a mesma pergunta que eu odiava, quando vinha da parte de mãe, agora continuou na boca da minha companheira, que sempre olhava pra mim perguntava: "Tu tá com raiva de quem, ou de mim? O que te fiz pra tu tá com essa cara?" Eu lhe dizia: "Estou com raiva do diabo!" Ela falava: " Pra quê tanta ignorância!" Então eu refutava: "Não é ignorância, é o meu jeito de ser desde criança."
Eu tinha a cara de pau por causa de mãe, pois era pressionado psicologicamente por ela a não sorrir nem ter a cara de molenga, como a mesma me dizia. Lembro muito bem que a minha velha embriagada, pegava uma faca peixeira e colocava em minha mão pra eu ficar sentado em cima dos sacos e sacolas com as esmolas; tripa de galinha e cadáver de frango que morriam imprensados nos garajaus e galinheiro de estoques das granjas Camesa e Capuxu, que ficavam na Feira Central de Campina Grande-PB, e a gerência doavam aos pedidores de esmolas. O motivo de minha mãe colocar uma faca em minha mão e me mandar fechar a cara, era pra ficar vigiando as nossas esmolas (tripa de galinha e cadáver de frango) enquanto ela ia pegar mais. Isso porque as demais pedidoras de esmolas tinha costume de roubar enquanto outras viravam as costas. Por isso minha coroa me dava uma faca, mandava colocar a cara de pau pra espantar as espertas de não roubar os nossos produtos. Ela dizia: "Bota a cara de homem, se essas desgraçadas chegar perto, mêta a faca na barriga delas". Eu ficava com a faca na mão e com a cara dura esperando cumprir as ordens exageradas da minha mãe, dadas a uma criança com menos de 10 anos.
Esses traumas, ainda vivo matando até hoje, mas só o jeito de falar e olhar que é difícil mudar, pois quando estou calado, meditando, ou falando com expressão emotiva contra as irregularidades, isto é, não sei reclamar com ninguém, pois pensam que estou com ódio por causa do meu jeitão de “ignorante" que adquiri da minha mãe, sem eu ser esse monstro que muitos pensam que sou.
Até hoje, se estiver sem conversar ou andando nas ruas, muita gente pensa que sou um brutamonte com a cara de pau, mas não, são traços psicológicos que venci um pouco, mas carrego um pouco comigo até hoje. Porém aprendi com o tempo a ser um domador e assassino do monstro que criaram dentro de mim. Mas em parte agradeço a minha mãe pelos seus duros ensinamentos; foram eles que me despertou em buscar o Martins que só eu tinha que construir e descobrir dentro de mim. Mas não tenho o que agradecer a minha irmã; só lamentos eternos.
Tome cuidado com que ensina, fala, ou modo de tratar o seu filho; ele pode ficar velho e carregar dentro de si o medo de viver o seu pesadelo do passado que lhe persegue por toda vida! Falo isso porque matei o ser que criaram em mim; mas sua memória continua corroendo o meu novo ser.
Por Martins da Cachoeira
O Gari Poeta Filosófico

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